Flor de Lótus

Próximo ao lixão, num barraco improvisado, vivia uma menina com sua mãe. Elas transformavam o que os outros descartavam no arroz com feijão de todo dia. E ali, entre sobras  e sujeira, sob uma nuvem de urubus e envolvida pelo mal cheiro, a menina reparou num objeto prateado. Foi até ele como quem encontra um tesouro. Era um flauta transversal. A menina tirou o instrumento do meio do entulho e correu para mostrar à mãe, que a princípio, pensou em vender para algum ferro velho ou até mesmo um brechó. Mas, ao reparar no desapontamento da filha, decidiu por permitir que ficasse com o achado. Mas, não naquele instante. À noite, quando voltaram para o barraco, a mãe, sem muito jeito, desmontou a flauta e ferveu suas partes numa panela amassada, secou bem cada pedacinho e montou novamente e devolveu a flauta à menina como se fose um presente.

No dia seguinte a menina tentou tocar, mas do instrumento só saíam uns sons desencontrados, nada que pudesse  lembrar  uma música. Mas a menina não desistiu. Passava todo o tempo livre às voltas com o cilindro de metal. Durante nove dias ela tentou sem sucesso. Até que, na noite deste mesmo dia, sentada num latão admirando o céu, avistou uma estrela cadente. Para estrela ela fez, em silêncio, três pedidos: um mundo melhor, uma casinha com jardim para mãe e saber tocar a flauta.

Na manhã do décimo dia, quando o sol ainda estava preguiçoso no horizonte, a menina pegou a flauta  para mais uma de suas tentativas. Segurou-a graciosamente de lado, como havia visto alguma vez em algum lugar ao qual não se recordava, e  soprou delicademente enquanto seus dedinhos transformavam, enfim, ar em som. E era um som tão lindo. Um melodia mágica que alterava a expressão de quem ouvia. Ficaram todos, lá no lixão, encantados. E desde então, a menina não parou de tocar as mais belas canções. Mas nada era mais encantador do que olhos da menina. Nos  olhos dela, havia o brilho da certeza  de que seus desejos seriam realizados na ordem inversa em que foram feitos. Era só uma questão tempo. Um questão de espera…

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Sonâmbula Insone

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5 pensamentos sobre “Flor de Lótus

  1. Seria tão bom ver uma estrela cadente, eu iria acreditar e depois fazer acontecer…
    Como seria bom se cada criança na rua tivesse seus desejos realizados… em ordem inversa ou não.
    lindo texto neo realmente comovente.
    mil beijos

  2. Pingback: propaganda atrasada « vigília onírica

  3. me faz lembrar um caso real, menos poético, por certo, mas também sobre sonhos infantis.

    meu irmão ganhou uma gaitinha de boca de aniversário de 6 anos. um mês depois, a escola abriu um concurso de talento, para a semana seguinte. e ele se inscreveu pra tocar o instrumento.

    “mas, carlos, tu não toca gaitinha.” “e daí? eu tenho a gaita e aprendo”. ele já tinha até informado qual era a música que ia interpretar: “ziri guidum”, de sua autoria. o mano soprava e aspirar no instrumento, conseguindo tirar só dois sons (para mim, era mais fuíííín fuáááá do que ziri guidum).

    rimos e o carlos perdeu a coragem de se apresentar. insistimos para que ele fosse, mas não adiantou mais. matamos o futuro músico

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