Era

Era para eu estar aqui

Ou lá

Mas lá, também não estou

Nem aqui,

Nem lá

Onde estou?

Me perdi em algum lugar dentro mim

Me perdi em algum lugar aí  fora

Onde estou?

Alguém sabe?

Nem aqui, nem lá

Por aqui…

Por aí …

Direção

Sua roupa estava meio amarrotada. Sua barba, por fazer. O cabelo, à vontade do vento. O carro já tinha alguns anos e o motor fazia um barulho esquisito. O rádio, de quando em quando, apresentava interferência. As vias não eram das melhores. Mas ele não se importava. Em seu rosto havia um sorriso seguro. Em seu olhos havia o brilho da esperança. Ele sabia para onde estava indo…

Flor de Lótus

Próximo ao lixão, num barraco improvisado, vivia uma menina com sua mãe. Elas transformavam o que os outros descartavam no arroz com feijão de todo dia. E ali, entre sobras  e sujeira, sob uma nuvem de urubus e envolvida pelo mal cheiro, a menina reparou num objeto prateado. Foi até ele como quem encontra um tesouro. Era um flauta transversal. A menina tirou o instrumento do meio do entulho e correu para mostrar à mãe, que a princípio, pensou em vender para algum ferro velho ou até mesmo um brechó. Mas, ao reparar no desapontamento da filha, decidiu por permitir que ficasse com o achado. Mas, não naquele instante. À noite, quando voltaram para o barraco, a mãe, sem muito jeito, desmontou a flauta e ferveu suas partes numa panela amassada, secou bem cada pedacinho e montou novamente e devolveu a flauta à menina como se fose um presente.

No dia seguinte a menina tentou tocar, mas do instrumento só saíam uns sons desencontrados, nada que pudesse  lembrar  uma música. Mas a menina não desistiu. Passava todo o tempo livre às voltas com o cilindro de metal. Durante nove dias ela tentou sem sucesso. Até que, na noite deste mesmo dia, sentada num latão admirando o céu, avistou uma estrela cadente. Para estrela ela fez, em silêncio, três pedidos: um mundo melhor, uma casinha com jardim para mãe e saber tocar a flauta.

Na manhã do décimo dia, quando o sol ainda estava preguiçoso no horizonte, a menina pegou a flauta  para mais uma de suas tentativas. Segurou-a graciosamente de lado, como havia visto alguma vez em algum lugar ao qual não se recordava, e  soprou delicademente enquanto seus dedinhos transformavam, enfim, ar em som. E era um som tão lindo. Um melodia mágica que alterava a expressão de quem ouvia. Ficaram todos, lá no lixão, encantados. E desde então, a menina não parou de tocar as mais belas canções. Mas nada era mais encantador do que olhos da menina. Nos  olhos dela, havia o brilho da certeza  de que seus desejos seriam realizados na ordem inversa em que foram feitos. Era só uma questão tempo. Um questão de espera…

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Sonâmbula Insone

Estréia

Quando o Neo me convidou para colaborar aqui com o TOS eu fiquei pensando no que escreveria. Sobre o que poderia ser o texto que, oficialmente, marcaria minha inauguraçaõ no blog. Me veio um frio na barriga que não sentia desde que deixei de pisar nos palcos da vida. Então percebi que viver é estar em uma peça interminável e, em constante estréia.

Nesse espetáculo não há ensaio, não há texto. Também não há edição nem videotape. É um grande improviso. O maior desafio é interpretar a si mesmo e, nunca, nunca mesmo virar espectador.

As luzes estão sempre acesas e as cortinas sempre abertas…

Respire fundo e ação!!

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Sonâmbula Insone