A TV e a Volatilidade da Globalização

Começou mais ou menos assim:

O Brasil era um pais “rural”. Rural? É, isso aí mesmo. Rural.

Então todo mundo tinha um radinho de pilha em casa. A família toda se reunia em volta daquela caixa, mais ou menos do tamanho de uma bateria de caminhão e aquilo era um espetáculo. Nas Copas do Mundo do início do século o rádio era o único meio de saber o que a Seleção Canarinho andava aprontando pelas paragens européias e etc. De repente inventaram um tal de televisor. Aquilo era mágico. Era incrível como as pessoas podiam ver as coisas dentro daquela “caixa”. As pessoas viam somente umas manchas brancas com uns vultos em movimento. Mas era uma revolução.

Alguns anos se passsaram e o televisor virou televisão, que mais tarde (no futuro) se tornaria apenas TV. Até porque, no futuro o pessoal vai gostar muito de sigla, pra economizar palavra e falar mais rápido. O melhor de tudo é que agora a televisão já era colorida e você não precisava mais ficar imaginando qual seria a cor do paletó do apresentador do Jornal Nacional (é, nesta época já existia o JN). Afinal, isso já era início da década de 70 do super-ultra-mega tecnológico século 20.

O controle de mudança de canal da TV parecia mais um acendedor de fogão, os controles de volume eram deslizantes. Depois os controles de canal eram uns botões e o volume é que parecia um acendedor de fogão. Como era muito incômodo ficar levantando do sofá pra trocar canal e aumentar ou diminuir o volume  foi criado o controle remoto. Agora sim, a revolução chegou. Podíamos assistir televisão a cores e podíamos controlar tudo do sofá mesmo. Ainda perguntam porque estamos nos tornando um país obeso. Ops, voltando ao assunto.

Precisávamos melhorar as condições, criar possibilidades maiores, setorizar o consumo, e obviamente, vender mais televisores, certo? Então nossos japoneses de plantão resolveram criar televisões cada vez melhores, que eram injetadas no mercado com slogans do tipo: “Tem coisas que só a Philco faz pra você!” ou então “Nossos japoneses são melhores que os japoneses dos outros”. Até formiguinhas eram usadas como ‘garotas propaganda’. Junto com a novidade, a televisão passou a ser chamadas de TV. Já estamos no futuro.

Então nossos japoneses criaram TVs de vários tamanhos. A menor tinha 5 polegadas e vinha acoplada a um rádio – veja a ironia. Os tamanhos variavam de acordo com o gosto e o bolso do cliente, claro. Afinal, com tantas novelas para assistir, precisávamos de televisores maiores. Mas, falando em rádio, ele também se modernizou e começou a trazer consigo o toca-fitas e, posteriormente, o CD e agora também podia ser conectato à tomada para economizar pilhas, claro. Afinal, a principal concorrente, dona TV, já tinha controle remoto. Então o rádio precisava de uma tomada, oras. Logo logo o rádio também consegue para si o controle remoto.

Voltando à TV, nossos japoneses viram que podiam melhorar ainda mais a coisa, então apresentaram a TV de tela plana. Que maravilha! Agora sim, somos globalizados e a TV de tela plana é a última sensação do mercado. A menor é a de 21 polegadas… e vai até onde a imaginação alcançar. Opa, calma. Nem tanto. Uma nova revolução está no ar. TV Tela plana.

Mas…

Nossos japoneses não são bobos. Viram que a TV Tela Plana ocupava espaço demais, já que eles tiveram que arrumar um lugar pra colocar o tubo de imagem gigantesco dentro daquela caixa que ficava cada vez maior (e mais pesado). Adeus coluna. Então inventaram a TV de Plasma e no mesmo pacote a tela LCD, ou cristal líquido, como queiram.

Mas nova tecnologia era caríssima, além de não se adequar muito bem ao sinal analógico das redes de TV brasileiras. Mas, agora já estamos no futuro, totalmente globalizados e as tendências mudam do dia para a noite. Estamos conectados com fios ou sem fios, no escritório ou na rua. Tudo gira muito rápido e precisamos de tecnologias melhores a cada dia. A LCD acabou ganhando o lugar da Plasma, já que também se adaptava aos displays de celulares, máquinas fotográficas digitais, MP4, 5, 6, 500, etc. Imagens digitais com definição maravilhosa ficaram apenas na promessa, pois por muitas vezes nossa LCD mostrava apenas borrões na tela. Tudo que a gente queria. Então estava definida nossa grande evolução?

Não. Não estava.

Nossos japoneses não cansam de trabalhar e logo deram jeito de aplicar umas inovações ao LCD. Descobriram que os primeiros LCDs eram grandes, espaçosos, largos demais, daí resolveram que era hora de criar umas telas mais finas, slim, ultra slim, e daí por diante. Definiram também que era hora de gente interagir com a tela apenas tocando nela, daí veio o touch-screen ultra slim. Não encosta muito forte que o negócio pode quebrar, de tão fino.

Nova revolução. Nossa TV, que tinha transmissão analógica, torna-se agora digital. Agora são inúmeras possibilidades, imagem High Definition que exige que os nossos LCDs estejam à altura da novidade. Até a TV por assinatura fica te torrando a paciência pra você assinar aquele pacote HD. Então nossos japoneses, que já esperavam que isso acontecesse, lançam as novíssimas Telas de LCD Full HD.

Ferrou!!

Você tinha acabado de comprar uma LCD na Casas Bahia em 24 prestações e os ‘fidumaégua’ dos japa armam esta pra você.  A sua LCD não é Full HD. Isso sem contar que aquele maldito lançamento, além de Full HD, vem com HDMI, CPI, FMI, INSS, PMDB, PSDB, PT, PC do B e PRONA. Pense numa TV avançada. E agora que você está invariavelmente fora do padrão mercadológico, vai ter que se virar com esta porcaria de 42 polegadas ultra slim finíssima que pesa 890 gramas, tem alta definição (mesmo sem ser Full HD), controle remoto universal e garantia de 5 anos. Como você comprou na Casas Bahia naquele pacotão do fim de semana, você levou de brinde um rádio AM e FM com toca-fitas e CD, com controle remoto.

Pelo menos agora você pode ouvir rádio…

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Neo